9 de dezembro de 2010

Natal em Portugal




Chegado o período natalício vejo-me obrigado a algumas considerações avulsas, desgarradas e próprias de quem apenas celebra o solstício de inverno, se bem que por vício imposto, nunca recusará os prazeres de uma boa ceia de Natal, ao calor da lareira, na presença da família, partilhando a alegria das crianças e gozando do conforto conquistado à boleia da bonomia que por estas ocasiões arrebata, embora artificialmente, a maioria dos espíritos judaico-cristãos.
E é por obediência à tradição me revolto contra todos aqueles que renegam a expressão máxima do Natal português.
Contra todos os patriotas que cantam hosanas a brasileiros jogadores da bola, apenas por estes envergarem camisetas com quinas, mas que moderna e parolamente integram grupos do facebook que têm por único objectivo a derrota de um dos hábitos mais genuinamente portugueses.
Indigno-me com aqueles que se envergonham do pobre passado luso, que se recusam a aceitar e até escondem o miserável estado de que este país parece nunca ter saído, dispondo-se no Natal, a gastar o que têm e o que não têm, em prendas que na maioria das vezes não interessam, por inúteis e sem significado, a quem delas deveria gozar.
Não tentem, contudo, antever nesta patetice sem sentido, o sentido da moralidade cristã, contra a obscena manifestação materialista em que por vezes se tornou a celebração do nascimento do filho de Maria e José.
Não procurem desta dissertação extrair também, qualquer moralidade barata, ao estilo nacional patriótico, contra a compra massiva de artigos made in china ou contra a adulação de aparatos de origem anglo-saxónica, em prejuízo da produção portuguesa. Ainda que um boneco das caldas, oferecido com a dose certa de humor, ajude, de quando em quando, a aliviar as tensões que algumas ex-amigas possam ter ajudado a crescer.
Todavia apenas me move a defesa de um dos valores maiores do Portugal moderno, nascido das entranhas do Estado Novo. Hábito que assinala o sentido prático dos portugueses e a generosidade como arma com que este mesmo povo sempre teimou em combater a sua miséria.
Pretendo, pois, ajudar a manter vivo um pedaço da nossa memória colectiva, com a certeza que da assumpção das nossas fraquezas e orgulho na forma como as ultrapassamos, poderemos almejar um futuro melhor.
Por isso insisto para que neste Natal, mais que em todos os outros ofereçamos:
Peúgas e slipes.
Ou como soe dizer-se na minha terra, meias e cuecas.
Para com salutar humor e apurado sentido crítico, lembrando-nos dos pelintras que somos, abrirmos o sorriso quando apalparmos o embrulho recebido pelas mãos frias e trémulas da tia-avó que sabe de experiência vivida, o quanto os pés quentes ajudam a confortar a alma.
Vamos rasgar o riso e retribuir.
Vamos deixar de furtar toalhas dos aviões, vamos deixar de fazer cadeiras da universidade ao domingo, vamos deixar de passear de Jaguar por conta de sabe-se lá quem, vamos deixar de receber de braços abertos pedófilos em nossa casa, vamos deixar de comer bolo-rei de boca aberta e tudo isso enquanto pasmados contemplamos os figurões que vão delapidando o nosso país e o nosso futuro.
Porque já vai sendo tempo, aconcheguem-se os ditos nos trusses mais apertadinhos que a luta afigura-se brava, equipem-se os calcantes com os coturnos mais confortáveis que a caminhada promete ser longa, e partamos nesta jornada de ida na procura de um Portugal melhor.


3 comentários:

  1. Perspectiva interessante...
    Somos uma nação de parolos e novos ricos.
    Parabéns pelo post.

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  2. Um pijama também vai bem...

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