
A revolução egípcia entrou na segunda fase, após a clara vitória do levantamento popular que resultou na saída de Mubarak.
Esta saída, apesar de ser um abalo fortíssimo, não representa o fim do regime. O poder está agora nas mãos do exército que é o pilar fundamental do regime de Mubarak e que ao longo dos 18 dias da contestação se posicionou para assumir o controlo da transição.
A entrada em cena da classe trabalhadora egípcia parece ter sido o elemento que forçou o exército a tomar a decisão de expulsar Mubarak. O activismo operário no Egipto não é novidade e nos últimos anos tem vindo a reforçar-se em condições de grande repressão. Se as gigantescas mobilizações deixavam o regime sem iniciativa, a possibilidade de paralisar a produção e privar o regime do seu sustento ditaram o desfecho. As contas que os militares fizeram são simples:
Revolta política generalizada + greve generalizada = revolução social
Daí a despacharem o esclerosado ditador para Sharm El-Sheik foi um instantinho. Vão-se os anéis, ficam os dedos.
Mas neste momento parece que o exército vê comprometida a sua autoridade para defender os dedos. Uma onda de greves está a alastrar pelo país e o exército parece por enquanto impotente para a conter. Um suposto decreto a proibir as greves não passou de um apelo televisivo a que os egípcios voltassem ao trabalho.
Um dos resultados do curso intensivo em democracia que as massas egípcias frequentaram durante 18 dias é a eliminação das barreiras entre as reivindicações económicas e as reivindicações políticas. Hoje todos sabem que a miséria era uma das ferramentas de controlo social do regime. Que não vai haver uma vida melhor sem limpar o país de todos os responsáveis políticos pelo tenebroso reinado de Mubarak.
O músculo ganho pelo movimento sindical nos últimos anos e a sua entrada em cena no momento actual são peças fundamentais para conseguir a eliminação total do antigo regime. A consciência política e capacidade de mobilização das massas é uma arma fundamental para limitar a capacidade de repressão do exército. O movimento ainda não tem um sector dirigente e esse será também um dos focos da luta dos próximos tempos. Suspeito que não deixaremos de ouvir falar do Egipto assim tão cedo.
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